A Igreja do Senhor dos Mártires situa-se na parte alta de Alcácer do Sal, do lado Oeste, a uma quota semelhante à do castelo, mas já afastada deste, fora da muralha. Estando hoje no limite de um arruamento que serve um complexo de escolas, é de admitir que no passado estaria num local rural e isolado. A área de vinha existente naquela encosta ainda é conhecida localmente como a Peregrina.
Em conversa recente, no âmbito do GIFI, foi ventilada a questão de se tratar de um antigo local de enterramento. Muito embora não haja evidências imediatas locais, há notícia bibliográfica daquela encosta ter sido um cemitério, com especial relevância para a necrópole da Idade do Ferro (séculos V a III AC). O sítio foi objecto de escavações no século XIX, depois de forma sistemática em 1926 e 1927, bem como em 1967. A ERA Arqueologia, como tem sido notícia desde Abril de 2025, está a recuperar vestígios das antigas olarias e de uma das necrópoles da periferia da localidade, neste caso do período romano, mas parecendo tratar-se de localização distinta.

Na Igreja do Senhor dos Mártires a capela mais antiga é a do tesouro, em cujo interior, em campanha arqueológica realizada em 2022, foram identificadas ossadas de vinte indivíduos, alguns dos quais se admite tenham sido cavaleiros da Ordem de Santiago, apresentando marcas da violência inerente ao seu munos bélico.
Já a capela dos mestresou de São Bartolomeu, do século XIV, veio a ser o panteão dos mestre da Ordem de Santiago. Há uma inscrição em pedra referindo-se aos primeiros enterramentos, de Garcia Peres e do seu antecessor no mestrado, Pedro Escacho. O facto de se tratar de uma capela gótica octogonal remete-nos para outros referenciais nas ordens de cavalaria medievais, merecendo análise e debate, sem desnecessárias derivas ocultistas.
A terceira capela é a de Maria de Resende, que no século XV a fez erguer para repouso eterno de seu marido, o Comendador Diogo Pereira. Da Ordem de Santiago claro. Mais um tema de debate interessante, relativo à dispensa de castidade dos cavaleiros das ordens militares religiosas ou, o que não é exactamente o mesmo, de estes poderem ter-se casado anteriormente da adesão à ordem e manterem-se naquela condição.
Terá havido uma quarta capela funerária, demolida a dado passo da evolução construtiva da igreja, dita de Martins Gomes Leitão, da qual restam alguns vestígios, nomeadamente, o brasão com dois leões patente numa das paredes exteriores do templo.
O santuário foi originalmente denominado de Santa Maria ou Nossa Senhora dos Mártires, sendo considerado um dos mais antigos tempos cristãos do Sul da Portugal. Por ser popularmente associado a diversos milagres, ali se realizaram ao longo de séculos romarias e peregrinações. Note-se que, sem especifica relação com este santuário, Alcácer do Sal integrava-se nas vias de peregrinação a Santiago, no âmbito do chamado caminho central.
A denominação original do templo perdura entre os séculos XIII a XVII (ou, para outros autores, XVIII), quando passa a ser conhecido como Santuário ou Igreja do Santo Cristo dos Mártires ou Senhor dos Mártires. Há quem refira que tal se ficou a dever à imagem de grandes dimensões de Cristo crucificado, oferecida ao santuário algures entre o final do século XV e o início do século XVI.

Há fontes bibliográficas que referem ser a referência a mártires relativa à memória preservada pelos Espatários do enterramento de cruzados mortos em combate durante o cerco e conquista de Alcácer do Sal aos mouros. Trata-se de um culto essencialmente local e popular, não especificamente instituído no seio da Igreja Católica Romana, como é o caso, por exemplo, do culto dos Mártires de Marrocos, os cinco franciscanos mortos em 1220, em Marraquexe, cujas relíquias foram em boa parte trazidos para o Mosteiro de Santa Cruz em Coimbra, primeiro panteão dos reis de Portugal. De toda a forma, a tradição portuguesa da devoção a Nossa Senhora dos Mártires parece ter tido início na tomada de Lisboa aos mouros, vitória que é atribuída à intersecção da Nossa Senhora, tendo alguns dos combatentes, incluindo cruzados, ganho fama de santidade junto dos fiéis, logo denominados mártires da fé. O paradigma da cruzada contra os infiéis conecta-se com cerne da missão da milícia de Santiago e também, naturalmente, com a exaltação dos que morreram pelo tomada de Alcácer do Sal, numa primeira ocasião e mais tarde na conquista definitiva pelo cristãos.
O milagre fundador – chamemos-lhe assim – do santuário em Alcácer surge descrito nas Cantigas de Santa Maria, de Afonso X, sendo que a discussão dos historiadores se centra em saber se a referência a que “… o milagre aveo en Alcaçar…” corresponde a Alcázar de San Juan (Ciudad Real), para o que apontam a maior parte dos especialistas, ou a Alcácer do Sal, como sustenta Teresa Lopes Pereira, sublinhando que entre os próprios especialistas Mettman sublinha não se conhecer na localidade espanhola qualquer igreja de Santa Maria dos Mártires.
Uma boa mulher, que todos os Sábados ia à igreja de Santa Maria dos Mártires, certo dia encontrou a porta do templo fechada. Abrindo-se as portas, a mulher foi colocar a sua oferenda sobre o altar. Saiu da igreja e as portas fecharam-se, para logo depois encontrar as portas da vila fechada. Fez uma oração a Santa Maria, que lhe abriu as portas da localidade e a levou pela mão até casa. A boa mulher contou o sucedido, tendo as gentes louvado a Santa Maria.
“A que as portas do ceo abriu pera nos salvar …”, começa expressivamente a cantiga.
Repare-se que o Sábado é o dia da semana referenciado ao culto de Nossa Senhora.
Leite de Vasconcelos refere a prática, no santuário, dos pedidos dos crentes serem efectuados através de bilhetinhos escritos, comentando que esta prática ocorre também noutros locais do país, incluindo na Igreja de Santo António, em Lisboa. “O povo entende neste caso que o papel é synonimo de requerimento.”. O registo resulta de uma visita a Alcácer do Sal realizada em 7 de Dezembro de 1894.
Existindo até hoje a Irmandade do Senhor Jesus dos Mártires, não há notícia de que tenha resistido à passagem do tempo qualquer registo escrito sobre os milagres conexos ao santuário, havendo apenas ex-votos bastante mais recentes que a duração do culto.

Um dos elementos-chave do santuário é a imagem de Nossa Senhora da Cinta – de pedra, em estilo gótico tardio – que se apresenta com o menino ao colo e ostentado a uma grande fivela na cinta, com a ponta do cinto assomando junto aos pés, bem como ostentando um escudo com a cruz de Santiago. O menino segura uma ave nas mãos. Aos pés de Nossa Senhora um cavaleiro de Santiago ora, de joelhos. Actualmente patente no interior do templo, a imagem terá estado anteriormente num nicho do alpendre fronteiro ao portal principal. Pelo menos no século XVI, seria aí que os fiéis lhe prestavam culto, mas a crença popular permanece até hoje, sendo a imagem procurada principalmente por mulheres grávidas (ou que pretendem engravidar ???).

A festa maior no santuário é actualmente a 13 de Setembro, depois de o ter sido também a 8 desse mês, e estando também historicamente referenciada a data de 15 de Agosto, data festiva anual por excelência do culto Mariano em Portugal.
Lisboa, 21 de Setembro de 2025
Pedro Basto de Almeida
Bibliografia sumária:
– Igreja do Senhor dos Mártires / Santuário de Santo Cristo dos Mártires, www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=2151 ;
– Santuário do Senhor dos Mártires, https://cm-alcacerdosal.pt/locais/santuario-do-senhor-dos-martires/ ;
– Os enigmáticos mortos do santuário do Senhor dos Mártires, in https://osaldahistoria.blogs.saenigmaticos-mortos-do-santuario-do97271;
– Escavações em Alcácer do Sal revelam sepulturas de cavaleiros da Ordem de Santiago, Expresso, 13 de Maio de 2022, https://expresso.pt/sociedade/2022-05-13-Escavacoes-em-Alcacer-do-Sal-revelam-sepulturas-de-Cavaleiros-da-Ordem-de-Santiago-c5f058c7 ;
– José Leite de Vasconcelos,
– Etnografia Portuguesa, Vol. IX, págs. 500 e 519;
– Archeologo Português, Vol. I., nº 3, págs.87 e 88;
– Teresa Lopes Pereira, O culto de Nossa Senhora dos Mártires em Alcácer do Sal, a Senhora da Cinta e as Cantigas de Santa Maria, in Medievalista (online), 6 / 2008, número 6, https://journals.openedition.org/medievalista/9056 ,
(texto original de Julho de 2025, rectificado com base nas notas tomadas durante as conferências da senhora Drª Rita Balona (arqueóloga) e Drª Maria Teresa Lopes Pereira, no Santuário do Senhor dos Mártires, Alcácer do Sal a 13 de Setembro de 2025)
